quarta-feira, 31 de março de 2010

Oh, Lord!


Muitas pessoas não foram treinadas para se satisfazerem com
o que têm, mesmo que elas tenham tanta coisa

Liguei o rádio do carro e, santa nostalgia: estava tocando uma
música da Janis Joplin que marcou minha infância, mesmo que
naquela época eu não entendesse quase nada de inglês não
que entenda muito hoje. Você deve lembrar, é um clássico,
começa dizendo: Oh, Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends, que significa,
mais ou menos: Oh, Senhor, não quer me comprar um Mercedes
-Benz? Todos os meus amigos dirigem Porsches, eu preciso
compensar. E seguia nesta irônica e provocativa prece pedindo
nem paz, nem amor, e sim uma TV a cores e noitadas.

Se Ele a amasse mesmo, não a deixaria na mão.

Oh, Lord, quantas pessoas, hoje, não estão por aí também
rezando por uma Louis Vuitton que não seja de camelô e por
uma poderosa TV de plasma? Elas abrem as revistas e estão
todos tão melhores de vida do que elas, como ser feliz sem
igualdade de condições? Dê a estas pessoas o que elas pedem,
Senhor, é só fazê-las ganhar um sorteio, uma rifa. Imagine a
dificuldade que o Senhor teria para atendê-las caso elas
pedissem um mundo mais acolhedor, menos agressivo, mais
sensato, o trabalhão que iria dar.


Janis Joplin gravou esta música em 1970. Nos últimos 37 anos,
o número de súplicas estapafúrdias segue aumentando e quase
ninguém mais lembra de agradecer o mistério da existência, o
poder transformador dos afetos, a liberdade de escolha, o
contato com o que ainda nos resta de natureza, o encanto dos
encontros, a poesia que há numa vida serena, a alma nossa de
cada dia, essas coisas que parecem tão obsoletas, e pelo visto
são. Oh, Lord, desça daí, faça alguma coisa, que aqui embaixo
trocaram o abstrato pelo concreto e não demora estarão pedindo
a parte deles em dinheiro.

Autor desconhecido!

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